Pensamentos proibidos

Mulher, só hoje posso sentir todos os males que você deixou em mim. Tornei-me um litoral devastado por uma enorme tsunami e os estragos vão demorar a serem reparados. Isso tudo é, porém, uma incógnita, já que nunca nos possuímos, nunca contemplei de forma mais minuciosa as curcas do teu corpo nu, nunca pude tragar o teu sabor com o mesmo ímpeto que fazia com o aroma que exalava do teu corpo sempre que nos aproximávamos. Eu nunca pude desvendar os teus segredos mais escuros, para atestar que as palavras que saiam dos teus lábios eram verdadeiras ou apenas mentiras para ludibriar a criança que há em mim. Meus secos lábios, nunca poderam sentir a rigidez dos teus músculos e minhas mãos nunca poderam seguir os desejos loucos dos meus pensamentos. Foram apenas palavras sacanas, pensamentos de um amor impossível, promessas não cumpridas, desejos luxuriosos, ações e desejos de sedução proibida. Nesse ponto, toda a esperança de o sonho tornar-se realidade já se esvairiu. O tempo acabou, sem dúvida. O desejo, que nunca fora apenas carnal, já se exauriu como chamas de um fogo sem mais madeira a queimar. Foi depressa, ou melhor, não houve pressa nenhuma, apenas cruzamos os braços e esperamos o tempo passar, como se esperássemos um oportunidade que nunca viria. É mesmo verdade isso ? Essa dor por não sentir a minha carne em contato com a tua? Essa saudade de beijos que nunca foram dados, duma respiração nunca sentida ? Passou também alguma tsunami levando teu coração? Não há pra mim outra alternativa que explique a sua apatia agora. Somos dois litorais devastados, almas que perderam o desejo ardente de um sentimento louco e que talvez nunca tenha existido.
Arthur Gondinho

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